Cofundador do Waze traz curso de empreendedorismo ao Brasil: foco no problema antes da solução
Com um recorte prático e crítico sobre o uso de tecnologias como IA, o curso promete retomar fundamentos do empreendedorismo: validação, usuário e modelo de negócio.

Foto: Vitaly Gariev
Uri Levine, conhecido por ter ajudado a criar o Waze, lançou no Brasil um curso de empreendedorismo que chama atenção tanto pela sua experiência quanto pelo recado central: empreender bem começa por entender o problema que se quer resolver. Em um cenário em que ferramentas avançadas, especialmente de inteligência artificial, facilitam o desenvolvimento de soluções, Levine propõe uma volta ao básico — descobrir dor, testar hipóteses e construir com foco no usuário.
Por que a proposta chama atenção
A vinda de um nome ligado a um dos maiores cases de tecnologia dos últimos anos naturalmente atrai interesse. Mais do que isso, a proposta é relevante num momento em que o ecossistema de startups vive uma fase de experimentação acelerada: há capital, talento e tecnologia, mas também um ruído crescente de projetos que nascem mais da atração por ferramentas sofisticadas do que do estudo profundo de um problema real.
Levine acredita que a dinâmica mudou: hoje, muitas ideias começam pela solução — um produto ou uma aplicação que parece promissora por aproveitar uma tendência tecnológica — e só depois busca-se um mercado que se encaixe. Esse caminho invertido pode gerar desperdício de tempo e recursos, além de produtos que não se sustentam quando as primeiras métricas reais aparecem.
O núcleo do curso: problema, validação e simples execução
O curso proposto explora pilares clássicos do empreendedorismo, mas com ênfase em métodos práticos: identificação de problema, entrevistas com usuários, testes de hipóteses e iterações rápidas. A ideia não é rejeitar tecnologia ou inovação — muito pelo contrário —, mas priorizar a clareza sobre qual dor está sendo tratada antes de investir pesado no desenvolvimento.
Entre os pontos centrais do conteúdo, destacam-se:
- Técnicas de descoberta de problema: como realizar entrevistas efetivas, interpretar sinais e mapear jornadas de usuário.
- Validação rápida: como criar experimentos de baixo custo que indiquem demanda real.
- Construção de MVPs conscientes: quando e como usar protótipos para aprender em vez de impressionar.
- Modelo de receita e unit economics: entender o caminho para sustentabilidade financeira desde cedo.
- Montagem de time e cultura: papel dos primeiros sócios e acompanhamento do crescimento.
Esses tópicos ganham contornos práticos com exercícios, estudos de caso e discussões sobre erros comuns que empreendedores cometem ao pular etapas essenciais de pesquisa e validação.
O papel da inteligência artificial na nova geração de startups
A disseminação de ferramentas de IA alterou profundamente a dinâmica de criação de produtos. Por um lado, democratizou o acesso a capacidades técnicas antes restritas; por outro, acelerou a construção de protótipos e soluções que parecem prontas para o mercado sem que haja comprovação de uma necessidade real.
No curso, essa questão é tratada com cautela: a IA é vista como uma amplificadora — uma alavanca poderosa quando aplicada a um problema bem definido, mas potencialmente enganosa quando usada para construir soluções que respondem mais à novidade tecnológica do que à utilidade para o usuário. Levine aponta que a tecnologia deve aumentar a precisão das hipóteses e a velocidade de aprendizado, não substituir o processo de descoberta.
Metodologia e formato: curto, direto e aplicado
O formato anunciado busca ser objetivo e orientado à prática. Em vez de longas aulas teóricas, o curso privilegia:
- Aulas curtas e focadas em ferramentas acionáveis.
- Exercícios semanais que demandam interação com clientes em potencial.
- Feedback direto de mentores com experiência de mercado.
- Estudos de caso que ilustram sucessos e falhas reais.
Essa abordagem visa criar um ciclo de aprendizado acelerado: testar rápido, errar barato, aprender e iterar. Para empreendedores que já têm uma ideia, o curso funciona como um filtro prático; para os que ainda buscam oportunidades, é uma forma de treinar olhar e método para identificar problemas valiosos.
Para quem o curso é ideal
Embora atraente para fundadores em estágio inicial, o conteúdo também tem apelo para gestores de inovação, product managers, investidores de early stage e equipes de produto dentro de empresas estabelecidas. O ponto em comum é a necessidade de alinhamento entre tecnologia e problema: qualquer pessoa responsável por decidir o que construir se beneficia ao entender melhor como validar demanda antes de escalar esforços.
Conselhos práticos que emergem do programa
Algumas orientações recorrentes ao longo do material e que podem ser adotadas pelo leitor imediatamente:
- Comece pelas perguntas, não pelo código: dedique tempo a conversar com usuários e mapear comportamentos.
- Priorize experimentos que respondam a uma hipótese clara e mensurável.
- Use IA para acelerar ciclos de aprendizado, não para mascarar a falta de validação.
- Meça unit economics desde cedo para saber se o crescimento tem chance de ser sustentável.
- Seja brutal ao descartar ideias que não mostram tração em testes reais.
Essas práticas reduzem o risco e ajudam a transformar intuição em evidência, o que é fundamental no processo de captação de recursos e construção de equipe.
Limites e críticas: nem tudo se resolve com curso
Cursos, por melhores que sejam, não substituem o árduo trabalho de liderar uma startup. Construir produto, negociar com parceiros, recrutar talentos e lidar com incertezas do mercado são habilidades que se aperfeiçoam na prática. O curso de Levine se apresenta como um atalho pedagógico — valioso — mas não uma fórmula mágica.
Além disso, há nuances culturais e de mercado: o Brasil tem características próprias em termos de comportamento do consumidor, regulação e infraestrutura, e adaptar aprendizados globais à realidade local exige sensibilidade. O ideal é combinar os princípios ensinados com conhecimento prático do contexto brasileiro.
Conclusão: redescobrir o problema como ponto de partida
A iniciativa de trazer ao Brasil um curso liderado por uma figura com trajetória relevante como Uri Levine reforça uma mensagem simples, porém muitas vezes negligenciada: empreender com eficácia exige começar pelo problema. No ritmo atual de inovação, em que ferramentas poderosas encurtam caminhos técnicos, manter o foco no que realmente importa — a dor do usuário e a sustentação econômica da solução — pode ser o diferencial entre um projeto passageiro e uma startup que realmente transforma mercados.
Para empreendedores e equipes que buscam construir com mais rigor, o curso propõe um retorno às bases com métodos práticos, testes rápidos e um olhar crítico sobre o papel da tecnologia. Mais do que ensinar a usar ferramentas, a proposta é formar um pensamento orientado a evidências, algo essencial para quem quer criar produtos que durem.